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História da moda – por mulheres comuns

Todos os dias antes de dormir eu rezo e agradeço a Deus por ter nascido nos anos 80. Nesta década eu era apenas um bebê fofinho e portanto, não fui obrigada a usar ombreiras, sombra e batom colorido, fazer permanente ou cortar o cabelo mulet  para estar na moda.

permanente

O permanente fazia o cabelo da minha mãe parecer ruivo

Se eu tivesse nascido uns anos antes, seria obrigada a usar um vestido como este no baile de debutantes. Ou pior, se eu tivesse nascido 20 ou 30 anos antes, teria passado esta década usando vários modelos bizarros no estilo “tudo ao mesmo tempo” confeccionados com moldes da revista Burda.

desta década eu só aderi aos óculos Ray-Ban- como era chamado qualquer óculos de sol

Mas não fui eu, foram mulheres como minha mãe, minha sogra e minhas tias que viveram na pele, estes e outros momentos da moda, que hoje só colhemos os frutos.

Sobretudo as décadas de 60, 70 e 80, que foram marcadas por grandes revoluções históricas, culturais e fashion (por que não?) estas mulheres viveram para exercer, mesmo que inconscientemente, um papel fundamental para que hoje possamos viver neste mundo tão diferente do que era antes delas. Elas usaram minissaia, calça, alisaram e enrolaram os cabelos com métodos alternativos, trabalharam para ajudar a família, aprenderam a se maquiar sozinhas e tinham seu cantor preferido da Jovem Guarda. Algumas usaram até pílula anticoncepcional.

Das aulas e livros de história da moda, me lembro que não havia espaço para as pessoas comuns. Sempre através de fotos das estrelas de cinema ou modelos da época, a moda era apresentada como uma ditadura. Mas e as nossas mães? O que elas estavam usando nesta época? Elas faziam acontecer.

O anos 60

Os exemplos que tenho aqui são reais, mostram as saias encurtando e os estilos se misturando, naqueles períodos de transição que os livros não abordam. Veja esta bela foto da tia Vera:

Tia Vera nos anos 60

Ela está usando um tubinho acinturado com decote canoa e outro decote nas costas que não dá pra ver, mas é muito ousado. Maquiagem nos olhos tipo gatinho e o colar de pedras. A maioria das referências bem anos 50, porque as tendências demoravam um pouco mais para pegar e um pouco mais para ir embora. E o cabelo quanto tempo será que demorava pra fazer? Será que ficava durinho assim, com laquê? Só perguntando pra saber.

A tia Luiza que já era uma senhora casada, optou por um modelo mais sério. A infelicidade desta foto estar desfocada é compensada com a possibilidade de confundirmos o tailleur da titia com um Chanel de Jackie Kennedy

Tia Luiza

Tia Luiza Usando seu Tailleur ‘Chanel’

Nesta época, que era bonito ver crianças com armas na mão, as saias começaram a encurtar.

minha mãe e tia Neusa

Algumas eram muito meninas ainda e não sabiam muito o que estava acontecendo, mas conforme cresciam, aderiam a essa moda, deixando os pais alvoroçados.

É comum se ouvir que a minissaia surgiu por volta de 1960, quando as baby boomers começaram a levar essa moda para as ruas de Londres. A outra parte da história não costuma ser tão divulgada, mas imagine seus avós em sua simplicidade, vendo as filhas com as pernocas de fora.  Principalmente no interior do Paraná, onde os pais eram bem mais conservadores e intolerantes. A aceitação não foi tão imediata. No começo, muitas saiam com suas saias mais comportadas acima do joelho e dobravam o cós quando estavam na rua, para dar uma “encurtadinha” . Minha mãe como era a costureira das irmãs, fazia no comprimento que bem entendia. A única condição do meu avô é que este quarteto na foto abaixo, não passasse perto do trabalho dele.

tia Neusa, tia Zulmira, tia Merce e tia Zilda

Mas essas ainda eram comportadas. Reparem nestas outras fotos, uns anos mais tarde. Apesar do comprimento das saias da tia Neusa e da tia Zilda não serem muito diferentes, essa mocinha de listrado, é do tipo que se a gente encontra na rua hoje, pergunta se esqueceu a parte de baixo em casa.

Tia Neusa e tia Zilda na missa de formatura

Nos anos 60, o padrão de beleza também sofreu uma choque. Na década anterior, as mulheres consideradas bonitas eram mulherões como Marylin Monroe, pin ups ou mesmo mães de família, mas sempre cheias de curva e carne. Com a explosão da quantidade de jovens na sociedade, eles pararam de copiar os pais e criaram seu próprio padrão estilo. Ser jovem passou a ser mais bonito, de preferência, uma carinha de criança, como a da modelo Twiggy.

Mas o mundo estava cheio de Twiggys por aí fezendo sucesso com sua infinita magreza e seus traços delicados. Era o caso da tia Zilda.

tia Zilda

Quando essas garotas bonitas se juntavam, parecia sempre uma reunião do fã clube dos Beatles.

Reunião do fã clube supervisionada pela vó Maria

Anos 70

Os anos 70 chegaram com toda a influência do movimento hippie, e as pequenas saias foram substituídas por longos vestidos e calças pantalona ou boca de sino, cada vez mais largas, como essa aqui da tia Vera.

Tia Vera usando Calças e gola Rolê

Mulheres usando calça era uma raridade e, a popularização desta peça foi um tabu tão grande ou ainda maior que o uso de saias curtíssimas.

A grande quantidade de tecidos era imprescindível: saias godê, mangas volumosas, flor de enfeite para dar um ar bucólico, era o look perfeito.

Tia Neusa

A tia Maria aderiu ao mesmo estilo no concurso de Miss Apucarana 1975. A tia Maria é essa do vestido claro, mas não pude deixar mostrar os vestidos das outras concorrentes: a primeira com vestido de crochê e a outro com um modelo super prafrentex.

Tia Maria no concurso de Miss Apucarana 1975

A minha sogra, Gislana, que era mais novinha na época não ficou pra trás: aderiu ao vestidão.

ela é aquela mocinha la atrás, de vestido com a manga boca de sino

Outra elemento importante na década de 70 foi o cabelão. Se você que acha que a potência do seu secador é fraca ou que precisa retocar sua progressiva a cada 3 meses, não sabe como era difícil manter um cabelão alisado todos os dias. E não tinha nada de hippie ressecado e sem corte, eram cabelos que passavam o dia todo montados numa touca para ficarem lindos a noite, o que também ajudava a livrar o cabelão de danos. Aí eles ficavam mais ou menos assim: você não sabe onde começa e onde termina e sofre para achar um fio quebrado.

mãe e tia Zulmira com seus cabelões da moda

Acredito que é por conta de todo esse cuidado que minha mãe tinha com os cabelos dela, que sempre condenou minhas rebeldias envolvendo tinta e descolorante. Hoje eu compreendo. O mais radical que ela fez com seus cabelos na juventude, foi fazer reflexos acinzentados, que renderam a ela o apelido de “ a professora do cabelo roxo”.

Escrevendo a História

Dos anos 80, a maior herança que trago são as unhas enormes da minha mãe, pintadas de vermelho. Eu tive pressa em crescer, para pintar as minhas assim. De qualquer forma, escrevo hoje, com minhas unhas vermelhas, para lembrar a importância que as atitudes da minha mãe e das mulheres da sua época tiveram para na história e na moda, elas enfrentaram tabus e se propuseram a fazerem coisas que muitas mulheres não ousaram até então. Depois dos anos 90, raramente vivemos uma moda tão intensa. Na maioria das vezes estamos reinventando o que foi vivido pelas nossas mães.

Minha mãe não tem muitas fotos, mas tenho muito orgulho de saber que foi ela quem costurou a maioria dos vestidos que suas irmãs usaram. Foi dessa maneira que ela, minhas avós e todas as tias se viraram para estarem na moda.

Essa coisa fofinha na foto aí em baixo, trouxe ao mundo essa que vos fala.

mamãe em 1960, no primeiro ano da escola

A ela que sempre me consulta pra saber com que roupa deve sair, que eu gostaria de agradecer. Porque mesmo que eu entenda muito do que ela está vestindo, ela sabe muito mais que eu sobre esta história, porque ela estava lá. A ela e às minhas tias, todas, que de alguma forma participaram da minha vida, que me deram a primeira calcinha de lycra, a primeira trança nos cabelo, os primeiros brincos enormes, o primeiro estojo de maquiagem para bincar  e que escreveram a história que eu vivo hoje, gostaria de prestar esta pequena homenagem e dizer que um dia quero olhar para o meu passado e ver talvez, que fui tão importante para meus filhos, quanto elas foram para mim.

Por Patrícia Bedin

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