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QUAL É A TUA OBRA? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética

MARIO SERGIO CORTELLA, Vozes, 2007

Temos carência profunda e necessidade urgente de a vida ser muito mais a realização de uma obra do que um fardo que se carrega no dia a dia.

O autor

No meu trabalho com moda, costumo passar muitas horas desenhando. Ano passado, enquanto desenhava, comecei a “ouvir” vídeos do youtube, para me distrair durante essa atividade. Religião, filosofia, psicologia, educação são assuntos que me interessam muito então, pesquisava por eles.

Tentando descobrir o que é Filosofia  conheci o Prof. Mário Sergio Cortella.

Fiquei admirada com a quantidade de informação que esse homem carrega e com sua facilidade em se comunicar e, principalmente fiquei me perguntando “Quem é esse cara que quase não deixou o Jô e o Faustão falarem?”.

Em algumas semanas, vi todas as suas palestras, entrevista e participações em programas de tevê. Confesso que também rolou uma empatia por ele ser pé-vermelho como eu e seus exemplos sobre como era a vida no norte do Paraná a algumas décadas atrás, tem muito a ver com as histórias que ouço na minha família.

O livro

A mensagem do livro é simples: Transforme sua vida numa obra, para ela não se transformar em um fardo. É comum ouvirmos pessoas dizendo que não misturam vida profissional e pessoal. Mas qual o sentido disso? Se você não gosta de ser em casa, a mesma pessoa que é no trabalho, há algo errado.

Nossa cultura ocidental foi construída sobre a ideia de que trabalho é castigo. Somente após a inserção do protestantismo que funciona sob a ética do trabalho como continuidade da obra divina (e da obra capitalista, coincidências à parte) essa ideia começou a mudar. O que não se aplica para o Brasil, país de ética predominantemente católica e portanto, apoiada na cultura de que só a pobreza salva.

O que precisa acontecer é mudar essa visão: tudo que faço no trabalho fora dele é minha criação, portanto,  precisa me gerar satisfação.

Inquietações propositivas

Como já deixei bem claro, sou muito fã do autor e não consigo discordar de nenhuma de suas proposições muito bem argumentadas. Vivenciei inúmeras vezes estas situações na minha pequena experiência de quatro anos no mundo corporativo. Neste período tive a feliz e também infeliz oportunidade de observar bem de perto ou mesmo vivenciar na pele, todas estas inquietações. Vou resumir as que considero essenciais. Sugiro ler com alguma reflexão (quase autoajuda):

Todas as vezes que olho o que fiz e não me reconheço, não reconheço como não sendo eu ou não me pertencendo, fico alheio.

Quando olho o que fiz como minha obra, mas a empresa onde trabalho não me reconhece, não me sinto leal a ela (resumido assim, parece óbvio).

Gente que acha que sabe tudo e não assume sua ignorância, é incapaz de se arriscar e mudar. Vive do mesmo. É preciso ter medo do mesmo.

“Se você não acredita que educação é um bom investimento, tente investir em ignorância”. Empresa e pessoas que se capacitam, não estarão automaticamente bem preparadas, mas empresas e pessoas que não se capacitam, certamente estarão despreparadas. Os tempos estão velozes e você precisa dar o seu melhor para acompanhar.

Se eu quero ver minha obra crescer, preciso de perseverança. As coisas não acontecem de uma hora para outra.

Às vésperas de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas(Fernando Pessoa)

Se quero mudar, preciso ter coragem de enfrentar meus medos, estar preparado para as oportunidades e não perder o foco.

Vale ganhar mais dinheiro em troca de não ter tempo?

Não existe líder nato, existem pessoas que colocadas nestas situações souberam evoluir na arte de inspirar pessoas.

A ética é um conjunto de valores de conduta que uma pessoa ou grupo de pessoas usam para responder as três grandes perguntas da vida: Quero? Devo? Posso? Somente quando as três respostas estão em consonância é possível encontrar paz de espírito. Quando essa integridade é burlada, a vida se torna pequena.

Ser ético ou não, é uma escolha. Se escolher não ser, vai enfrentar as consequências. Se escolher ser, seja coerente. Não adianta falar mal dos políticos e furar a fila do banco.

Filosofia popular

Por último, pense coletivamente. Não seja arrogante. Para estas pessoas foi dedicado o trecho mais famoso e divertido do livro, que o autor representa neste vídeo abaixo, provavelmente seu vídeo mais famoso:

Você sabe com quem está falando?

Impressões

Minha primeira impressão neste momento é que escrevi demais no tópico anterior, mas é assim que o livro faz com que eu me sinta, cheia de informações ideias e conclusões aplicáveis ao dia a dia. Tudo que descrevi no tópico acima é apenas um pouco do que este pequeno livro (em tamanho) tem a dizer.

O autor usa a semântica para explicar termos e ideias, deixando ambos fáceis de serem entendidos.

A primeira vez que li, senti falta do timbre e da entonação de voz do Cortella, já que estas são muito marcantes, fazem toda a diferença no conteúdo. Quando reli os trechos que gostaria de descrever neste post, ficou mais fácil.

De qualquer forma, o livro vale a pena (mas ainda prefiro assistir a palestra).

Por fim, dois trechos fizeram toda a diferença na minha vida profissional e pessoal, respectivamente.

O primeiro é o prefácio, escrito pela filha do autor, Ana Carolina R. Cortella Krämer. Ela conta que disse ao pai que gostaria de falar em público tão bem com ele (eu, você e todos os profissionais de Ciências Humanas, Ana Carolina). E ele respondeu:

“Quando você falar mais de 30 anos em público, será como eu”. Simples.

O segundo é quando Cortella cita vários autores para ajudar a esclarecer aos arrogantes você-sabe-com-quem-está-falando, a sua pequenês humana. De muitas, a definição de Fernando Pessoa é a mais pura:

o homem é um cadáver adiado.

Por Patrícia Bedin