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A insustentável leveza do ser

MILAN KUNDERA, 1984, Círculo do Livro S.A.

As viagens que fiz no ano passado de Londrina para Brasília me ensinaram que o melhor amigo para estes momentos, é o livro. Você não precisa desligar ou colocar no modo offline, ele está sempre disponível. Basta abrir que posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, já explicou o American Express.

A única diferença é que não precisei pagar por este.

A insustentável leveza do ser, é um livro que minha mãe comprou antes de eu nascer. Cresci olhando e pensando “um dia vou ler esse livro” mas como já expliquei anteriormente, não li.

Então na última visita que fiz aos meus pais, eu precisava de uma história para me fazer companhia nas cinco horas de viagem que me aguardavam e esta foi a escolhida.

No começo o papel já velhinho e empoeirado me irritou um pouco os olhos, mas logo fui distraída por tantas discussões. O romance passado em Praga, na então Tchecoslováquia durante a invasão Russa ao país, conta a história de Tomas, um cirurgião que coleciona muitas “amizades eróticas”. Ele conhece Tereza, uma moça simples e muito bonita de uma pequena cidade próxima à Praga, que entra na sua vida como um bebê enviado num cesto rio abaixo. Tereza é o grande amor deste homem, mas sofre de ciúmes por não entender o desejo dele em ter várias amantes.

Uma das amigas preferidas de Tomas é Sabrina, uma artista plástica de costumes diferentes que marca o romance com algumas cenas emblemáticas. Ela que mais tarde se envolve com Frans, possui características fortes, muito parecidas com as de Tomas, enquanto o primeiro se mostra um cara mais fraco mas que busca a beleza para sua vida.

É muito difícil explicar o que exatamente é a insustentável leveza do ser. Para mim é uma questão poética, interpretável a partir da bagagem que cada um carrega. A infidelidade de Tomas pode ser a leveza em seu estilo de vida enquanto Tereza sofre por não ser como ele. Ou Tereza é tão leve que se torna um peso na vida de Tomas enquanto a infidelidade deste é um peso para ela.

Cena do filme A insustentável leveza do ser

Acredito que o peso em geral se refira mais especificamente a uma situação (o caso de pessoas pesadas são casos de gente que teve a sorte de acumular muitas situações ao longo da vida).

Situações que inicialmente são leves e um dia você percebe que está sendo consumido por aquele peso. De qualquer forma as situações de peso e leveza podem ser muitas, mas este misto de sentimentos é claro durante todo o livro.

Esta é uma questão filosófica discutida em muitas páginas mas que não ouso tentar explicar devido ao meu conhecimento raso. Vou usar as palavras de Ítalo Calvino em Seis propostas para o novo milênio, que expressa exatamente as sensações que permeiam o livro e minha visão sobre a vida:

O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação

Aquele que abraçar alguma coisa que aparenta peso e que por fim se revela leve, encontrará o verdadeiro paraíso.

Pessoas pesadas

Neste mundo não há quem não tenha tido em sua vida, uma pessoa pesada: cara de boazinha, mansa, quieta e sofrida. Parece inofensiva mas, se você você abrir espaço para ela, vai se tornar um encosto.

Não costumo confiar em pessoas que falam pouco. Costuma-se dizer que são sábias, porque estão ouvindo e observando mais. Para mim sempre estão com o pensamento bem distante porque estão arquitetando um plano maquiavélico. Talvez simplesmente não falem por medo, insegurança ou algum sentimento ruim que em geral causa um grande peso na vida delas mesmas e dos que estão ao seu redor. Mas como já disse, é uma questão de interpretação poética.

Em todo caso vai um conselho cruel: evite pessoas pesadas. Caso já tenha uma dessas por perto, tente ajudar no máximo duas vezes depois desista.

Impressões

 Gostaria de conhecer a república Tcheca. Praga parece uma cidade linda e o encantamento de Tereza me contagiou. Imagino os tanques russos andando pela cidade e sinto uma insustentável leveza.

Praga- República Tcheca

Tereza fala sobre uma música que marcou sua infância e a música é de Beethoven –  nada de Balão Mágico ou Galinha pintadinha.

Para Tomas, o amor não se manifesta no desejo de fazer amor com várias mulheres  (esse desejo se aplica a inumeráveis mulheres) mas ao desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher). Acredito na sinceridade de Tomas e também no sono compartilhado.

Kundera fala que, dos mulherengos há dois tipos: aqueles que se relacionam com muitas mulheres buscando a perfeição e os que buscam em muitas mulheres encontrar detalhes peculiares, muitas vezes estranhos, como verdadeiros descobridores.

Há uma parte do livro que o torna muito excitante, contando as aventuras sexuais de Tomas. Excitante a ponto de convencer o leitor que a vida dos sujeitos promíscuos são realmente mais leves.

Há também momentos de discussões políticas e a que mais me intriga é quando Kundera fala sobre a culpa que Édipo sentiu ao saber que dormia com sua mãe. A grande questão: o culpado é sempre culpado, ou é menos culpado quando não estava a par de todo contexto?

Uma leitura leve, muitos cortes de tempo, as vezes você não sabe se está no futuro ou no passado. Nas primeiras páginas o escritor conta a maioria dos acontecimentos importantes do enredo, deixando claro que na verdade, o que importa é a reflexão.

Pretendo ler novamente, neste caso somente depois de conhecer Nietzsche.

Em 1887 foi lançado o filme baseado na obra, que leva o mesmo nome.

Por Patrícia Bedin