Arquivo da tag: estilo saramaguiano

Saramago – Biografia

JOÃO MARQUES LOPES, Leya, 2010.

Depois de ler Ensaio Sobre a Cegueira, me apaixonar pelo livro e pelo ritmo da leitura, comecei a planejar o próximo romance de José Saramago que eu iria ler. Encontrei este livro por acaso, mas ele me ajudou muito e ainda ajudará, nesta decisão.

Saramago - Biografia

Achei a história do autor muito interessante apesar de óbvia: garoto pobre nascido numa aldeia qualquer, se interessa por livro, vira adulto inteligente e morre famoso.

Jovem

Para os que acreditam que Saramago já nasceu velho, aqui uma surpresa. Ele nasceu em 16 de novembro de 1922, na Freguesia de Azinhaga, Golegã, Portugal, porém registrado 2 dias depois (18/11/1922). Filho de José de Sousa e Maria da Piedade, tornou-se José de Sousa Saramago por conta de um vizinho que trabalhava no Registro Civil e que estando bêbado, acrescentou sem que ninguém percebesse, o último nome ao registro da criança. Fez, porque este era um apelidinho infame dado à família na aldeia e que se referia a uma erva ruim que nasce sem ser chamada. Um tipo de capim.

O fato só foi percebido no momento da matrícula do pequeno José na escola primária, o que deixou o pai, José de Sousa muito furioso. Contudo, hoje calha perguntar quem seria “o grande escritor, Prêmio Nobel José de Sousa”?

 “O grande escritor Prêmio Nobel José Saramago” soa mais poderoso, não? Ironia do destino (nada contra os Josés de Sousa).

O menino José cresceu, trocou a escola regular pelo curso de Serralheiro Mecânico por motivos financeiros, no qual se formou, e trabalhou durante um ano, sendo depois transferido para o cargo de escrevente.

Com seus 20 e poucos anos estava casado, tinha uma filha, Violante Saramago. Mantinha um emprego regular, enquanto o ímpeto de escrever despertava até que conseguir lançar seu primeiro livro que infelizmente passou despercebido. Era chamado Terra do pecado, lançado 1947, aos 25 anos, a mesma idade que tenho hoje, o que me faz ter esperanças.

Adulto

Depois disso o autor se envolve com escritores e jornalistas influentes, passou a trabalhar no meio, até ser nomeado diretor adjunto do Diário de Notícias de Lisboa, um dos jornais de maior tiragem de Portugal, de onde foi demitido após acusações de usá-lo para favorecer o partido comunista.

Depois deste acontecido, Saramago passou alguns perrengues, escrevendo crônicas e traduzindo livros. Lançou algumas obras sem sucesso até que em 1980 lança seu primeiro grande Romance: Levantado do Chão. Depois disso, pode ter como sua única atividade a escrita, o que gerou nos anos seguintes outros livros, muitos prêmios e a consagração.

Um senhor admirável

Observe que em 1981, Quando tem sua primeira obra consagrada, Saramago completava 59 anos, a personificação do “nunca é tarde para recomeçar”.

Em 1988 se casa com a fã e então jornalista espanhola Pilar Del Rio. Uma bela história retratada no filme José e Pilar.

José e Pilar

Saramago escreveu muitas obras de cunho histórico, sendo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de 1991, o mais polêmico e que levou o autor a um exílio voluntário na Ilha Canária de Lanzarote, na Espanha, terra de sua segunda e última esposa. O livro do autor conhecido por seu ateísmo, foi considerado pelo governo, uma ofensa grave ao catolicismo tão fervoroso de Portugal, vetando a candidatura do livro ao Prêmio Literário Europeu (este comportamento do governo também é conhecido como perseguição).

Em 1995, lança Ensaio sobre a Cegueira, livro que inaugurou uma fase mais alegórica de seus romances. Após este lançamento, Saramago começa a ser indicado para o prêmio Nobel de Literatura, o qual o autor veio a receber em outubro de 1998.

O autor publicou outras obras sobretudo neste estilo, até poucos anos antes de sua morte. Por volta dos anos 2000, já em torno dos 80 anos, além de publicar livros sobre política, esteve engajado em diversas causas sociais, muitas destas polêmicas. O Famoso “me processa”.

E para finalizar seu legado, publicou em 2009, Caim, livro que retoma o estilo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, irritando novamente os católicos mais conservadores.

Após sua morte, foi publicado seu segundo romance, Clarabóia, que havia sido rejeitado em 1953 pelas editoras, provavelmente pelo contexto social e político da época. No livro o autor cita o provérbio “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, fazendo referência a uma personagem espanhola, cheia de defeitos, casada com um português. Ele que mais tarde casou-se com uma espanhola, pediu que o livro fosse publicado somente após sua morte – provavelmente por este motivo.

Em 2010 morre José de Sousa Saramago deixando esposa 28 anos mais jovem, uma filha, dois netos e a Fundação José Saramago. “São os fados” ele diria.

Estilo Saramaguiano

O estilo muito peculiar do autor, de desobedecer as regras de pontuação, aconteceu de uma forma muito natural. Depois de três anos buscando uma forma inovadora de registrar as duzentas páginas de depoimentos sobre a história de muitas famílias como a sua, em tempos difíceis do país, no livro Levantado do chão começou a escrever sem saber muito bem qual o caminho. Então o próprio Saramago neste diálogo que manteve com Juan Arias (que resultou no livro José Saramago – El amor possible) descreve como aconteceu:

(…) comecei a escrever como toda a gente faz, com guião, com diálogos, com a pontação convencional, seguindo as normas dos escritores. Quando ia na página 24 ou 25, e talvez esta seja uma das coisas mais bonitas que me aconteceram desde que estou a escrever, sem o ter pensado, quase sem me dar conta, começo a escrever assim: interligando, interunindo o discurso direto e o discurso indireto, saltando por cima de todas as regras sintáticas ou sobre muitas delas. O caso é que quando cheguei ao final não tinha outro remédio senão voltar ao princípio para pôr as 24 páginas de acordo com as outras

Impressões

João Marques Lopes é português e já escreveu outras biografias de autores portugueses como Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Esta foi a primeira Biografia de Saramago e a única lançada em vida(janeiro de 2010). O autor é filósofo e doutorando em literatura brasileira. Talvez pela familiaridade com o Brasil, é raro o uso de termos portugueses, mas por estar inserido no meio acadêmico, seu texto é denso e complexo.

O autor usa muitos dados históricos fazendo eu me sentir cansada e burra quase o tempo todo, principalmente quando fala da história de Portugal, sobretudo relacionada ao partido comunista, ao qual Saramago esteve ligado.

Mas quando descreve e contextualiza os livros, é bem objetivo. Alguns trechos de livros contendo spoillers me deixaram muito irritada, entretanto outras citações me motivaram conhecer ainda mais este velho de alma jovem.

Antes de ler esta Biografia, planejava ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo. As informações dadas por Lopes sobre o enredo, o contexto histórico e principalmente a polêmica (ah, todo mundo gosta de uma polêmica) fizeram este título ser, sem qualquer dúvida, o escolhido.

Por Patrícia Bedin