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Diário de Solidão

Encontrei este texto perdido, o rascunho de um dia em que tentei aprender uma coisa boa com a solidão: valorizar a presença do outro. 

casa vazia

30 de Setembro de 2012

Este trajeto casa-aeroporto é realmente energizante, é um ar de liberdade controlado por radares de 60 quilômetros por hora. Mas não me importa, me faz feliz saber que minha opinião sobre aeroportos e rodoviárias mudou, graças ao meu amor. De lugar triste, cheio de saudades e despedidas, passou a ser o lugar onde eu vou buscar, reencontrar, ou dizer até logo à felicidade. O aeroporto passou a ser a linha de chegada da saudade.

Mas não, não estou indo buscar o amor, fui deixá-lo, ele vai passar a semana viajando a trabalho: estou contente por ele e por dedicar uma semana só para mim.

Fiz uma lista de coisas que quero fazer, resolver assuntos pendentes, pintar o cabelo, ir ao shopping, fazer uma dieta rigorosa para limpar o organismo. Estou muito empolgada, vou começar já, indo ao mercado. A semana será longa e produtiva. Vou jantar uma lata de Pringles, mas amanhã compenso a arte.

1º de Outubro de 2012

Estou andando de um lado para o outro da casa a passos lentos, à duas horas. Ando, paro e me olho no espelho. Inclino a cabeça. Vou até a cozinha. Paro. Estou assim desde que acordei do meu sono vespertino. Não é sempre que faço isso, mas aqui o silêncio é tão grande que destrói minhas boas energias. Nem a maldita obra funcionou hoje. Talvez eu devesse colocar uma música. Talvez voltar a dormir. Mas vou ler um pouco e fazer uma sopinha no jantar.

2 de Outubro de 2012

Tentei ler um livro pela manhã, mas adormeci no segundo parágrafo, achei que havia perdido este péssimo hábito, mas certos comportamentos incondicionais, estão comigo a muito tempo e não tenho certeza se quero me livrar deles. Dormir enquanto leio, é um deles.

A verdade é que não me lembro das coisas que eu tinha pra fazer. Tomei café e acho que estou gorda. Felizmente o café não resolve meus problemas, mas faz eu me sentir como se pudesse resolvê-los imediatamente – enquanto a euforia não passa. E as horas passam.

3 de outubro de 2012

Enquanto me olho no espelho me perguntando se estou realmente gorda, tento lembrar de como a vida era dura quando eu era magra. E aos pouco vou me convencendo a gostar dessas campanhas “não sou 38”, enquanto penso como é difícil cozinhar para uma casa vazia e concluo que talvez eu devesse me deixar jantar um pacote de pipoca de microondas enquanto assisto Avenida Brasil.

4 de outubro de 2012

Hoje não teve jeito, tive que sair da cama, pesquisar algumas roupas na internet, ter algumas ideias para ir ao casamento. Felizmente achei outra guerreira perdida como eu e passamos a tarde no shopping procurando um vestido para comprar. Essa era a única missão real que eu tinha para a semana, mas infelizmente, não achei o vestido. É difícil achar um vestido pra comprar. Cheguei muito tarde em casa, pelo menos passei o dia acompanhada. Acho que acabou a pipoca, não vou jantar, também não tem graça ver Avenida Brasil sozinha.

5 de outubro de 2012

Meu Deus, a semana passou e eu não fiz nada. A vida perdeu o sentido muito rápido. Nenhuma das minhas super missões da semana parecem importantes hoje. Vou só arrumar a casa, decorar com alguns coraçõeszinhos e esperar o amor voltar.

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Querido Diário

Duas coisas que gosto muito: diários e Chico Buarque. Eles tem em comum, a beleza em se deixar falar simples e profundo.  Tem coisa mais bonita?

“Trouxe um porrete a mó de me quebrar, mas eu não quebro não, porque sou macio”

Por Patrícia Bedin

Diário – o livro proibido

Recentemente li mais um livro do Mário Sérgio Cortella, O que a vida me ensinou – viver em paz para morrer em paz (paixão, sentido e felicidade). Logo no começo ele fala sobre a importância de escrever para apaziguar, elaborar o raciocínio, registrar. Em outro momento ele fala sobre a sociedade da exposição, onde não basta ser visto, é preciso ser curtido e compartilhado. Além das redes sociais ele faz uma afirmação que enfim, é a primeira da qual eu discordo:

o desejo de quem faz um diário é ser lido

Ora, se é possível escrever pra apaziguar, nem sempre o que é escrito é para ser exposto. Mas ele prossegue:

Nenhum de nós faz um diário, escreve um poema, pinta quadros, para que sejam esquecidos

Pinturas sempre, poemas às vezes, diários nunca.

Na minha visão, esta regra é clara.

Realmente, eu nunca pintei algo para ser esquecido, quero mais é que seja visto (coisa que o leitor pode fazer acessando minha página no Flickr). Poemas podem ser desabafos ou protestos, depente da intenção. Mas diários, para os que os fazem, são uma parte tão intrínseca do escritor que, é mais provável que ele queira a manter escondida. No Facebook é possível ver somente o que quer ser mostrado, por isso todo mundo sempre está feliz. No diário não tem plateia, se mostra principalmente o que há de não compreendido. O eu totalmente cru.

Falo com propriedade pois comecei aos 11. Começou meio sem graça mas aí vieram as super amigas, os sonhos, as paixonites, as bobagens. Ao contrário do que as mães pensam, há muita bobagem, bobagens fundamentais de uma adolescente! As lembranças, os papeizinhos, os colírios da Capricho, as músicas preferidas… Enfim, escrever me ensinou a apaziguar, elaborar o raciocínio, registrar.

Com o tempo vieram coisas mais sérias, dúvidas, escolhas, mas depois da faculdade, pouco tempo sobrou para ele. Virou quase um depósito de convite de casamento das amigas, endereço dos que moram longe, fotos antigas – sim, fotos impressas.

Recentemente, vi uma entrevista da Danuza Leão que me motivou não só a montar este blog mas também a reativar meu velho companheiro. Ela disse “escreva todos os dias, nem que seja para dizer que o céu estava azul”.

Ninguém é um livro aberto

Como aqui em Brasília, o céu sempre está azul e lindo, resolvi escrever sobre uma coisa menos óbvia. Contrariando todas as regras, encontrei um trecho pouco confidencial que expressa exatamente  a função deste livro-amigo. É um pouco desabafo, um pouco registro, um pouco de tudo. Só quem tem sabe como é. Confuso mas diferente, e é o que me faz defender com unhas e dentes, diários não são escritos para serem lidos. Prepare-se caro leitor, para conhecer meu próprio estilo saramaguiano, desenvolvido aos 12 anos, somente para economizar espaço.

Todos os dias quando apago a luz, é lua cheia. Uma lua linda, branca e brilhante e eu fico feliz. Aí vem alguém e apaga a luz. Então me lembro que minha janela fica de frente p/ 1 prédio, bem alto, como todos os outros por aqui. Muitos outros. No fundo, eu gosto, não tenho certeza, é tudo tão novo que gostaria de coloca numa lista pra poder assimilar uma coisa de cada vez.(…).  O medo é o que cega. Aliás, eu li o Ensaio Sobre a cegueira e confesso que um lado de mim quer ser a mulher do médico enquanto outro lado de mim, confesso que mais forte deseja que o mundo exploda pq as pessoas e as coisas estão cada vez + idiotas. Eu não me salvo. Portudo isso, e por incentivo da Danuza Leão resolvi voltar a escrever. Porque este caderno antes tão precioso, agora é só 1 diário velho cheio de lembranças que não quero mais lembrar. Ele ainda é o lugar onde eu posso escrever e-rrado (tipo agora) agente junto, geito kkk E ninguém vai saber. Eu posso ser brega. Eu não tenho corretor ortográfico apontando meu erro mesmo quando ele é proposital. Talvez alguém leia essa bobagem toda mas, espero que até lá eu esteja viva, pra faturar um troco,  sabe como é, preciso comer. Mas também poder dizer que escrevi um livro. Assim, de agora pra frente, só vai me faltar plantar 1 árvore e fazer um filho. Talvez eu plante uma flor no lugar, pq realmente ñ acredito que se eu plantar uma árvore, vá fazer diferença no mundo. Acredito que a beleza da flor traga + resultados colorindo a vida de uns c outros que cruzarem o caminho dela. Por tudo, acredito que quando for a Apuka eu traga meus longos e recheados diários. Agendas secretas altamente confidenciais. Intocadas. Relíquas que só as provas de amizade testemunharam. Pretendo relê-los, talvez lá eu encontre pensamentos sábios de um eu do passado que ficou perdido naquelas linhas cheias de erros, “+”, “nauns”, “agentes”. “Geitos” não, não depois da 7ª série.

Mas é isso mesmo meu querido. Eu disse trazer pra cá esses cadernos porque estou morando nesta cidade que, segundo o boiadeiro, lugar melhor não há. A exatamente 2 meses e 3 dias ou 4, se você for daqueles que dizem “já passou da meia noite”. Estou aqui porque resolvi me juntar àquele, este da página ao lado (Pequena descrição na página ao lado). Este que chegou como quem chega do nada, não trouxe nada pq gastou td seu dinheiro em passagens mas também nada perguntou. Mal sei que ele se chama Alberto Brandão mas entendo que me quer(…).E é assim que pretendo transformar este livro de más lembranças em um final feliz.

Olhe para si mesmo

Por muitos anos, acreditei que tudo era preciso ser escrito e fotografado para ser lembrado. Hoje vejo tão claramente, que o essencial está gravado na memória, e que o escrever  é por os pensamentos pra fora. Organizados ou não. Hoje sei que para isso é preciso coragem e que  não há nada melhor e mais simples para encarar quem você é essencialmente.

Para os que nunca tiveram essa experiência, comece agora e quem sabe um dia, você  leia o que escreveu e se reconheça – ou não – ou que pelo menos, lembre de não cometer os mesmos erros do passado. Ou ainda, tenha a valentia de assumir que você realmente não sabe direito quem é, mas está tentando descobrir, assumindo isso, é claro, no Facebook.

Por Patrícia Bedin