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Paulo e Estevão

Francisco Cândido Xavier, Pelo Espírito Emmanuel. FEB, 1941.

Paulo e Estêvão

Saulo de Tarso, homem judeu que aos vinte e poucos anos se tornara um dos doutores da lei Mosaica no templo de Jerusalém, tem sua vida transformada após passar por ela, Estêvão.

Este também judeu, criado em Corinto, viu seu pai ser assassinado por soldados romanos enquanto a irmã Abigail, fugia. Ezequiel, como era seu antigo nome, ainda jovem e saudável, foi escravizado. E apesar de tantos infortúnios na breve vida, se tornou exemplo de fé e amor  consolidado sobretudo, após ser apresentado ao Evangelho, pelos irmãos da Casa do Caminho – como era conhecida a Igreja Cristã, logo após a vinda de Jesus.

Transtornado com a postura de Estêvão e seu comportamento transformador, Saulo de Tarso inicia uma perseguição aos cristãos. E no auge de sua ira, Jesus o encontra para perguntar:

“Saulo, Saulo… Por que me persegues?”

Saulo inicia então, o processo de conversão ao cristianismo que o fez ser conhecido por 2000 mil anos como o homem que levou a verdade de Jesus para muitas gentes.

 Impressões

As dificuldades enfrentadas pelos apóstolos e todos os irmãos do caminho, no início do Cristianismo, torna esta história muito, muito bonita. Preconceitos, sofrimentos, superações, processos que todos um dia iremos passar para que nos transformemos em pessoas melhores, são retratados muito intimamente na pessoa de Paulo.

É o aquele enredo que você lê e pensa “se ele foi forte para superar isso tudo, eu também posso ser”. Uma história para ser tomada como exemplo de força e perseverança.

Para os que costumam ler a Bíblia, tudo fica mais interessante pois o livro contextualiza os momentos em que Paulo escreve suas epístolas, facilitando o entendimento do conteudo destas.

Seiscentas páginas, o livro mais longo que eu já li. Apesar de algumas partes terem caminhado a passos lentos, não pensei em desistir em nenhum momento, porque na verdade, foi uma leitura muito aconchegante e pertinente.

Apesar do estilo certinho do nosso amigo Emmanuel contar a história, o texto é cheio de palavras difíceis o que fez eu me sentir mais inteligente.  Emmanuel é o espírito que ditou este livro para Chico Xavier. Acreditando ou não, muitos fatos são os mesmos retratados em outras biografias do apóstolo Paulo.

Dois trechos me marcaram fortemente. O primeiro diz respeito às mudanças profundas ocorridas na vida de Saulo de Tarso após sua conversão.

O rabino que voltou a ser um simples tecelão – profissão ensinada pelo pai, mas até então nunca praticada – aprendeu a viver do seu trabalho, humildemente. Trabalho e humildade dignificam. 

No segundo momento Paulo conclui que existem quatro coisas básicas para viver, onde encontraremos a paz de espírito. Lição esta a ser levada, para uma existência inteira. São elas:

Amor, Trabalho, Esperança e Perdão.

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O Evangelho Segundo Jesus Cristo

JOSÉ SARAMAGO, Companhia das Letras, 1991.

Faz algum tempo que estou adiando este momento. Terminei de ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo a mais de dois meses, desde então tenho refletido sobre o texto para tentar entendê-lo, o que acredito ser a causa do meu conflito. Minha conclusão foi elucidada em um fórum de leitores e é bem simples: não é uma história para ser entendida. Sem razões, sem moral da história, sem lições para toda a vida. Muitas coisas acontecem sem explicação e assim continuam porque é a vontade de Deus e quem estiver no seu caminho, não deve contestá-lo, apenas aceitar.

 

José e Maria eram um casal normal e tinham uma vida normal. Quando Maria engravidou de seu primeiro filho, um anjo bateu a sua porta em forma de mendigo, e anunciou a vinda do primogênito. Este anjo que esteve por perto em muitos momentos da vida de Jesus, não se sabia se, era do bem ou do mal. Você pode até pensar que era Jesus se disfarçando de mendigo pra testar a bondade dos homens. Mas não era. Essa dúvida atormentou Maria por nove meses até ouvir da boca do mesmo, diante na manjedoura do recém-nascido, tais palavras:

Com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi

Como na história que vem sendo recontada por dois mil anos, José, ao descobrir que os romanos matariam todas as crianças de Belém, menores de três anos, fugiu com o filho. Na versão de Saramago, José salvou Jesus mas passou a carregar consigo a culpa de não ter salvo a vida dos outros meninos da cidade. Sem conseguir se perdoar, sonhou todas as noites com o acontecimento até o dia de sua morte. Jesus herdou os sonhos do pai e, perdendo sua paz, partiu em busca de explicações. Deixou a mãe com oito irmãos menores e levou as sandálias do genitor, num gesto simbólico, talvez, de que as histórias se repetem. Mas se Jesus está fadado a seguir os passos do pai, resta saber se Deus ou José.

Jesus humano

Nesta obra, Jesus é mais um adolescente confuso como tantos outros, como tem sido desde que o mundo é mundo. Tem mágoas com a família, dúvidas, medos, curiosidades. Somente uma pequena característica o diferencia dos outros de sua idade: ser o filho de Deus.

De todas as experiências em sua caminhada a mais bonita e mais polêmica, é a do amor. Ele conhece Maria de Magdala e encontra nela um porto seguro, um amor verdadeiro. Ela que é uma mulher já experiente, ensina a ele tudo sobre amor e sexo – não como faz a Fernanda Lima, porque naquela época nem as putas era tão saidinhas, mas mas de um jeito muito doce e carinhoso. Ela deixa a vida de prostituição para estar ao lado de Jesus no resto de sua caminhada. 

Para Deus não há frente nem costas

O diabo não faz sacrifício, jejum, não vai ao templo e ainda, suas ideias simples e práticas deixam Jesus horrorizado, como a de usar uma cabra para aliviar suas necessidades. Enquanto o menino acredita ser pecado, como está escrito no livro sagrado, o anjo do mal sabe que quantas e quantas vezes, para exibir e gabar-se de um corpo limpo, a alma a si mesma se carregou de tristeza, inveja e imundície. O anjo apenas segue com seu rebanho. O anjo não faz acontecer nada, apenas deixa que aconteça.

Deus ao contrário, deseja que todos sigam seus preceitos, adora receber sacrifícios, a ponto de exigi-los e de punir os que não cumprirem suas regras. Fez Jesus nascer seu filho para usá-lo como ferramenta na empreitada de ampliar as fronteiras do seu poder, prometendo ao garoto muitas explicações que nunca chegam. Dá poderes ao filho para que use em seu nome, mas há sempre, algo que o menino não compreende.

A figura de Deus é a personificação do deus descrito no Antigo Testamento: aquele que deve ser temido, que castiga, que condena ao fogo eterno e que é capaz de exterminar cidades inteiras em nome do seu poder.

Todos que, como eu, vivenciam uma cultura predominantemente cristã, sabem que Deus pode ser vingativo, mas quando pensamos nele, vemos alguém quase tão querido como o todo poderoso Morgan Freeman. No livro ao contrário, o escritor deixa bem clara sua visão do deus que Nietzsche já afirmara, foi criado a imagem e semelhança do homem.

Morgan Freeman intrepreta Deus no filme “Todo Poderoso”

Para mim, Saramago quis dizer simplesmente, que para este deus que o ser humano criou, não existe bem ou mal, existe segui-lo ou não segui-lo: Siga a deus e obedecerás suas regras, não o siga e serás livre.

Impressões

Nascida e criada no catolicismo, tive mais dificuldades do que imaginei, em assimilar que é a história de José Saramago, é uma ficção. A todo momento em que o “óbvio” conhecido através da Bíblia era dissimulado, eu me confundia. Mas esta sensação não demorou muito a passar.

Todo o texto é bem fundamentado nos costumes do povo hebreu da época, em fatos históricos e bíblicos. Algumas coisas o escritor faz questão de ressaltar, como o tratamento dado às mulheres: o homem deve falar somente o essencial com sua esposa pois as mulheres são ardilosas e devem calar-se para não levar seus maridos a cometerem erros como Eva fez com Adão. Ou seja, mulheres são filhas de Eva e pagarão para sempre pelo pecado original.

É sabido que este livro causou grande polêmica perante a Igreja Católica, sobretudo em Portugal, como já comentei em outros textos*. Conhecer a real intenção do autor é difícil, porém é muito fácil entender os conceitos expostos por ele neste romance, e relacioná-los com a igreja cristã.

Quanto aos costumes judaicos não ouso comentar, mas sempre me pergunto: por que o antigo testamento ainda faz parte da Bíblia? Jesus veio pregar que só o amor salva, seu único mandamento era simples, mas infelizmente, muitas igrejas que se dizem baseadas nesta doutrina, ainda se apegam no medo do castigo eterno para não perder seus fiéis. Não adianta mostrar um senhor bonzinho na hora de vender, e um carrasco na hora de julgar. Sejamos coerentes.

Maria de Magdala, ironicamente, é responsável pelos trechos mais agradáveis desta leitura. Sem ela certamente, Jesus não teria suportado realizar todos os desejos de seu pai.

Ao terminar o livro, senti um grande vazio e senti que nada do que eu esperava aconteceu, fiquei sem entender, quis que alguém me explicasse, esperava respostas. A verdade é que somos todos como este Jesus, humanos e imperfeitos, vagando pelo mundo, em busca de um sentido, mas sem saber muito bem o porquê.

* Saramago – Biografia;

José Saramago – homens que você deveria conhecer

Por Patrícia Bedin