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DIVAS ABANDONADAS – Os amores e os sofrimentos das 7 maiores divas do século XX

TETÉ RIBEIRO, Jabuticaba, 2007.

Este ano me tornei uma grande fã do programa Saia Justa, do canal GNT. Além de boas e divertidas discussões que assisti, é interessante conhecer o lado crítico dos atores ou jornalistas que geralmente só vemos atuando ou sendo imparciais. Mas dentre os envolvidos, está Teté Ribeiro e passei um bom tempo me perguntando: afinal, quem é essa mulher que nunca apareceu na Globo? Teté Ribeiro é uma jornalista e escritora com estilo de se vestir, se portar e escolher as palavras muito peculiar, e que admiro. A segunda maior incidência de pesquisas com seu nome no Google é “Teté Ribeiro idade”, tão bonita, espontânea e sincera, parece uma criança no corpo de adulto.

Como a curiosidade não foi só minha a maior busca por seu nome é “Teté Ribeiro Wikipédia”, ou seja, todos querem saber quem é ela. Sem site, sem blog e sem twitter, para conhecer melhor a Teté, procurei um de seus livros: Divas Abandonadas.

Lady Di, a atriz Ingrid Bergman, a ex-primeira dama americana Jackie O., a poeta Sylvia Plath, a cantora lírica Maria Callas, a cantora Tina Turner e a atriz Marilyn Monroe.

Suas histórias tristes, são recheadas de traições, violência, preconceitos, tentativas de suicídio e são de alguma forma, comoventes.

Diana e o príncipe Charles no dia do casamento

Lady Di , foi pedida em casamento pelo Príncipe Charles aparentemente por conveniência pois ela atendia melhor às exigências da família real. No entanto, Charles manteve desde então o relacionamento que tinha com Camila Parker-Bowles, com quem é casado atualmente.

A história de Jackie O. é um tanto parecida. Moça jovem, não muito bonita, pedida em casamento pelo lindo, rico e jovem senador, John F. Kennedy, que estava encantado por ela, apesar da moça não ser deslumbrante e loira, como era a preferência do rapaz.

Por fim, apesar de ter se tornado um simbolo de sofisticação, sofreu com as traições do marido durante todo o casamento.  Provável motivo de posteriormente ter se casado com o milionário grego, Aristóteles Onassis, do qual torrou aproximadamente 50 milhões de dólares durante os sete anos em que estiveram casados. É atribuído a ela o ditado “a primeira vez que você se casa é por amor, a segunda por dinheiro, a terceira por companhia”.

É fácil perceber que a companhia não era o forte no casamento entre ela e Onassis, um vez que dos 4 meses de internação que antecederam a morte do marido, Jackie fez vigília durante 3, mas no quarto desistiu, e foi esquiar com os filhos, enquanto quem realmente sofria com a doença do homem, era sua amante, Maria Callas, que foi ajudada pela irmã de Onassis para que pudesse ir ao hospital e se despedir do amor de sua vida.

Maria Callas deixou seu marido, um ex-gay, para viver um romance com Aristóteles Onassis que durou aproximadamente 15 anos. Aceitou suas amantes, o casamento com Jackie, o aborto que ele pediu, alegando que perdera o interesse sexual em sua primeira mulher após ela ter engravidado.

Maria Callas e Marylin Monroe no aniversário do presidente Kennedy

Tinha um ego tão grande, que ficou extremamente ofendida ao se apresentar no aniversário do presidente americano J. Kennedy, tendo sido, ela e as outras atrações, ofuscadas por Marylin Monroe, que cantou o ‘parabéns’ mais famoso da história (ofuscou tanto que eu nunca soube que houveram outras apresentações naquele dia).

Tudo, provavelmente, pelo fato da cantora estar dopada e atrasada, e com os recentes boatos de ser a nova amante do presidente – fato que levou  Jacqueline a não comparecer ao evento.

Marilyn Monroe, é a única dessas histórias que me fez sentir alguma pena. Primeiro porque ela fez eletrólise no frente do cabelo para a testa ficar maior, depois porque era filha de uma mulher que gostava tanto de sexo e era extremamente liberal para a década de 20, que Marilyn nunca soube qual dos cinco homens que mantinha relação com sua mãe na época, era seu verdadeiro pai.

Acabou algumas vezes se prostituindo em troca de dinheiro e comida, e achava isso normal. Estava tão preocupada em agradar os homens, que nunca conseguiu manter um relacionamento saudável com nenhum deles. Faleceu na noite em que havia se acertado com o ex-marido devoto, dispostos a passarem o resto da vida juntos.

Peço desculpa pela confusão, mas me admira como de alguma forma, a vida destas mulheres estavam interligadas.

Menos a de Tina Turner, descendente de negros e índios, estava completamente distante.

Tina se se fingindo de feliz ao lado de Ike

Para mim, Tina  foi incomparavelmente, de todas estas histórias, a que mais – e realmente – sofreu. Casou-se muito cedo com um monstro que a espancava e estuprava sempre que estava irritado e passou toda sua juventude fugindo dele. Quando se livrou do ex-marido, partiu para a carreira solo na qual lançou 15 álbuns. O de maior sucesso foi Private Dancer, em 1985, vendendo 14 milhões de cópias. Tina tinha 46 anos e na época, recebeu o título de Rainha do Rock.

Impressões

Minha primeira impressão foi péssima por conta da capa do livro, péssima, sem nenhum glamour ou dramaticidade. Não adianta, sempre comprarei pela capa. Fui pra casa decepcionada neste dia, mas voltei no dia seguinte, determinada a comprar, afinal, queria saber o que de bom haveria ali. Mas ainda prefiro uma capa mais elegante, digna de não apenas uma, mas de sete divas.

Ela não me decepcionou, também não me surpreendeu. Conclui que havia muito conteúdo a ser colocado em poucas páginas deixando pouco espaço para seus comentários hilários, práticos e pontuais – espero que eu esteja correta. De qualquer forma, rola uma identificação e continuo admirando-a.

Assistindo o Saia Justa esta semana ela profere a máxima “não acho ruim banalizar o sexo, se o mundo fosse um tremendo baile funk, tava todo mundo mais feliz (…)”. Não dá pra não gostar dela.

Já a próxima colocação não é uma impressão, é uma afirmação: as pessoas das altasrodas possuem costumes estranhos desde sempre. Anorexia e bulimia é só o começo para elas. A coisa vai mesmo de eletrólise para aumentar a testa e fazer a chuca como tratamento de beleza. Apesar de bizarro é bem interessante saber destes detalhes, inclusive para lembrar sempre, que  as famosidades são pessoas com algum grau de normalidade e maluquice, como todo mundo.

Mesmo sendo uma leitura cansativa, pela quantidade de informações, é muito interessante imaginar como foi para essas mulheres, encarar uma sociedade que ainda hoje julga e condena, lá nos anos 50. Casar-se várias vezes, aceitar as amantes do marido, ter vários amantes, namorados, amores, eram decisões com preços caros demais, era preciso muita coragem para encarar.

A mulher sem voz alguma, ao contrário de como é atualmente, tomando decisões para sua vida, e sofrendo as consequências calada. Coisas que não imaginamos quando as vemos lindas e deslumbrantes nas fotos por aí. É disso que o livro trata.

Por outro lado, vejo que algumas cairam nesta situação pela ingenuidade ou por amor cego, que não queriam ver os sinais do IVDM – Índice Vai Dar Merda – batendo lá no alto. Em muitos momentos da leitura minha a sensação foi de “Bem feito! Quem mandou ser burra”. Por isso, minha falta de compaixão com a maioria, principalmente com Jackie, mas acho que é pessoal neste caso.

Por fim, de todas, a história que mais me ‘pegou’, foi a da cantora Maria Callas. Talvez  a imaginasse numa ópera o tempo todo, por isso a dramaticidade era maior.

Simplificando a conclusão: vale a pena.

Veja no próximo post, uma galeria de fotos relacionadas ao livro.

Saramago – Biografia

JOÃO MARQUES LOPES, Leya, 2010.

Depois de ler Ensaio Sobre a Cegueira, me apaixonar pelo livro e pelo ritmo da leitura, comecei a planejar o próximo romance de José Saramago que eu iria ler. Encontrei este livro por acaso, mas ele me ajudou muito e ainda ajudará, nesta decisão.

Saramago - Biografia

Achei a história do autor muito interessante apesar de óbvia: garoto pobre nascido numa aldeia qualquer, se interessa por livro, vira adulto inteligente e morre famoso.

Jovem

Para os que acreditam que Saramago já nasceu velho, aqui uma surpresa. Ele nasceu em 16 de novembro de 1922, na Freguesia de Azinhaga, Golegã, Portugal, porém registrado 2 dias depois (18/11/1922). Filho de José de Sousa e Maria da Piedade, tornou-se José de Sousa Saramago por conta de um vizinho que trabalhava no Registro Civil e que estando bêbado, acrescentou sem que ninguém percebesse, o último nome ao registro da criança. Fez, porque este era um apelidinho infame dado à família na aldeia e que se referia a uma erva ruim que nasce sem ser chamada. Um tipo de capim.

O fato só foi percebido no momento da matrícula do pequeno José na escola primária, o que deixou o pai, José de Sousa muito furioso. Contudo, hoje calha perguntar quem seria “o grande escritor, Prêmio Nobel José de Sousa”?

 “O grande escritor Prêmio Nobel José Saramago” soa mais poderoso, não? Ironia do destino (nada contra os Josés de Sousa).

O menino José cresceu, trocou a escola regular pelo curso de Serralheiro Mecânico por motivos financeiros, no qual se formou, e trabalhou durante um ano, sendo depois transferido para o cargo de escrevente.

Com seus 20 e poucos anos estava casado, tinha uma filha, Violante Saramago. Mantinha um emprego regular, enquanto o ímpeto de escrever despertava até que conseguir lançar seu primeiro livro que infelizmente passou despercebido. Era chamado Terra do pecado, lançado 1947, aos 25 anos, a mesma idade que tenho hoje, o que me faz ter esperanças.

Adulto

Depois disso o autor se envolve com escritores e jornalistas influentes, passou a trabalhar no meio, até ser nomeado diretor adjunto do Diário de Notícias de Lisboa, um dos jornais de maior tiragem de Portugal, de onde foi demitido após acusações de usá-lo para favorecer o partido comunista.

Depois deste acontecido, Saramago passou alguns perrengues, escrevendo crônicas e traduzindo livros. Lançou algumas obras sem sucesso até que em 1980 lança seu primeiro grande Romance: Levantado do Chão. Depois disso, pode ter como sua única atividade a escrita, o que gerou nos anos seguintes outros livros, muitos prêmios e a consagração.

Um senhor admirável

Observe que em 1981, Quando tem sua primeira obra consagrada, Saramago completava 59 anos, a personificação do “nunca é tarde para recomeçar”.

Em 1988 se casa com a fã e então jornalista espanhola Pilar Del Rio. Uma bela história retratada no filme José e Pilar.

José e Pilar

Saramago escreveu muitas obras de cunho histórico, sendo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de 1991, o mais polêmico e que levou o autor a um exílio voluntário na Ilha Canária de Lanzarote, na Espanha, terra de sua segunda e última esposa. O livro do autor conhecido por seu ateísmo, foi considerado pelo governo, uma ofensa grave ao catolicismo tão fervoroso de Portugal, vetando a candidatura do livro ao Prêmio Literário Europeu (este comportamento do governo também é conhecido como perseguição).

Em 1995, lança Ensaio sobre a Cegueira, livro que inaugurou uma fase mais alegórica de seus romances. Após este lançamento, Saramago começa a ser indicado para o prêmio Nobel de Literatura, o qual o autor veio a receber em outubro de 1998.

O autor publicou outras obras sobretudo neste estilo, até poucos anos antes de sua morte. Por volta dos anos 2000, já em torno dos 80 anos, além de publicar livros sobre política, esteve engajado em diversas causas sociais, muitas destas polêmicas. O Famoso “me processa”.

E para finalizar seu legado, publicou em 2009, Caim, livro que retoma o estilo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, irritando novamente os católicos mais conservadores.

Após sua morte, foi publicado seu segundo romance, Clarabóia, que havia sido rejeitado em 1953 pelas editoras, provavelmente pelo contexto social e político da época. No livro o autor cita o provérbio “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, fazendo referência a uma personagem espanhola, cheia de defeitos, casada com um português. Ele que mais tarde casou-se com uma espanhola, pediu que o livro fosse publicado somente após sua morte – provavelmente por este motivo.

Em 2010 morre José de Sousa Saramago deixando esposa 28 anos mais jovem, uma filha, dois netos e a Fundação José Saramago. “São os fados” ele diria.

Estilo Saramaguiano

O estilo muito peculiar do autor, de desobedecer as regras de pontuação, aconteceu de uma forma muito natural. Depois de três anos buscando uma forma inovadora de registrar as duzentas páginas de depoimentos sobre a história de muitas famílias como a sua, em tempos difíceis do país, no livro Levantado do chão começou a escrever sem saber muito bem qual o caminho. Então o próprio Saramago neste diálogo que manteve com Juan Arias (que resultou no livro José Saramago – El amor possible) descreve como aconteceu:

(…) comecei a escrever como toda a gente faz, com guião, com diálogos, com a pontação convencional, seguindo as normas dos escritores. Quando ia na página 24 ou 25, e talvez esta seja uma das coisas mais bonitas que me aconteceram desde que estou a escrever, sem o ter pensado, quase sem me dar conta, começo a escrever assim: interligando, interunindo o discurso direto e o discurso indireto, saltando por cima de todas as regras sintáticas ou sobre muitas delas. O caso é que quando cheguei ao final não tinha outro remédio senão voltar ao princípio para pôr as 24 páginas de acordo com as outras

Impressões

João Marques Lopes é português e já escreveu outras biografias de autores portugueses como Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Esta foi a primeira Biografia de Saramago e a única lançada em vida(janeiro de 2010). O autor é filósofo e doutorando em literatura brasileira. Talvez pela familiaridade com o Brasil, é raro o uso de termos portugueses, mas por estar inserido no meio acadêmico, seu texto é denso e complexo.

O autor usa muitos dados históricos fazendo eu me sentir cansada e burra quase o tempo todo, principalmente quando fala da história de Portugal, sobretudo relacionada ao partido comunista, ao qual Saramago esteve ligado.

Mas quando descreve e contextualiza os livros, é bem objetivo. Alguns trechos de livros contendo spoillers me deixaram muito irritada, entretanto outras citações me motivaram conhecer ainda mais este velho de alma jovem.

Antes de ler esta Biografia, planejava ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo. As informações dadas por Lopes sobre o enredo, o contexto histórico e principalmente a polêmica (ah, todo mundo gosta de uma polêmica) fizeram este título ser, sem qualquer dúvida, o escolhido.

Por Patrícia Bedin