Ensaio sobre a Cegueira

JOSÉ SARAMAGO, Companhia Das Letras, 1995

Ensaio sobre a cegueira

Quando João Marques Lopes contextualiza Ensaio Sobre a Cegueira em seu livro Saramago – Biografia, ele atribui o grande sentimento de distopia desta e de outras obras do autor, ao sentimento gerado por diversos fatos pós Segunda Guerra, como a Guerra Fria e a Revolução Portuguesa de 1974.  Ele diz “Não será por acaso que o próprio Saramago se referirá em várias ocasiões ao que lhe parece ser a possibilidade do fim da Razão”.

Criando coragem

“Amei o livro”, “odiei o filme”, “não leio Saramago porque é difícil”. Assisti a adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira para o cinema e fiquei mais confusa ainda. Para apagar esse enorme ponto de interrogação sobre a minha cabeça e provar para mim mesma o quanto sou foda, só encarando a leitura.

A última vez que li uma obra com tantas páginas eu estava de repouso pós-cirúgico num fim de semana frio e chuvoso, morava sozinha e a TV estava quebrada. Foi bem fácil, porque o livro era cheio de figurinhas. Sim, a quantidade de páginas é algo assustador para quem não tem o hábito de ler.

Precisei me encher de coragem para ler oitenta páginas em dez dias. Até que no décimo dia, a preguiça de sair da cama falou mais alto e decidi então, fazer algo mais útil que dormir. Peguei o livro e neste dia passei dezeseis horas comendo as palavrinhas até o fim. É bem assim mesmo, não dá pra parar.

Em terra de cego…

O enredo é simples. Uma nova doença, a cegueira branca, começa se alastrar rapidamente. O governo preocupado decide colocar todos os afetados em quarentena num manicômio abandonado.

A cegueira branca é mais ou menos assim

Entre os principais cegos estão todos aqueles que se encontravam no consultório do médico quando o primeiro cego foi buscar ajuda. São portanto: o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga de óculos escuros (porque além de cega ela está com conjuntivite, pobrezinha), o garotinho estrábico, o velho da venda preta e por fim, a mulher do médico, que é cega de mentira mas assim se faz, por diversos motivos.

Segundo o dito popular, a mulher do cego deveria ser a rainha desta terra, mas seu maior medo era se tornar uma escrava de toda aquela gente já que em pouco tempo os valores, o respeito e outras “qualidades” que diferenciam os humanos dos animais, se perderam. E não eram poucos, só era possível saber que em pouco tempo as camas acabaram e havia gente dormindo pelo chão dos corredores, das camaratas, da cozinha. Ela, a mulher do médico, era os olhos da razão, condenada a assistir tudo bem de perto, sem muito a fazer.

Fim e retorno da razão

Aviso: este trecho contém alguns spoillers, nada que atrapalhe o prazer da leitura, mas se ainda assim você não quer saber, pule para o próximo subtítulo.

Apesar de triste, sofrido e muito degradante na maior parte do tempo, o livro traz também sentimentos positivos.

No começo todos vivem por comida: defecar, comer, transar e dormir nos corredores do manicômio são detalhes perto da feiura que estão as ruas com gente morta pelas calçadas, gente lutando como zumbis por comida e abrigo. Apesar disso o grupo que anda com a mulher do médico desenvolve sentimentos de união, companheirismo, amizade e cuidado uns com os outros. Coragem para enfrentar os bandidos, se doar pelo outro sem receber nada em troca, compaixão para perdoar, até amor nasce entre a rapariga e o velho. Sim, o homem velho da venda preta.

Quando não há olhos para apreciar ou julgar as aparências, as coisas que realmente importam emergem. É como se o bom senso e a razão estivessem retornando à vida ou, mais provável, sobrevivido a duras penas na pessoa da mulher do médico. Como teria sido de ela tivesse desistido? Se abstido?

O que é a cegueira?

“Em terra de cego quem tem um olho é rei.”

“O pior cego é aquele que não quer enxergar.”

“Muita luz é como muita sombra: não nos deixa ver.”

Todas as citações são possíveis. No começo eu acreditava que uma delas teria sido a semente do enredo. Depois pensei que a semente era a suposição “e se todos ficassem cegos?” e por fim pensei “vejam como todos estão cegos”.

Cada fato do livro não é muito diferente do que assistimos aos domingos no fantástico. Vai de desembargador apoiando o tráfico de drogas a roubo de órgão para transplante. Essencialmente, qual é a diferença entre um estupro coletivo e corrupção no Brasil?  Ou famílias vivendo sem saneamento básico e eletricidade num país que arrecada mais de 500 bilhões de reais em quatro meses?

Os personagens mudam, mas a cegueira é a mesma.

Impressões

Aquele estilo ame-ou-odeie saramaguiano, com poucos parágrafos, pouca pontuação e muitas letras maiúsculas depois da vírgula, deixou de ser um monstro rapidamente e se tornou uma voz calma e distante, me contando uma história longa e cheia de detalhes, com um sotaque português quando apareciam expressões características e ironias tão sutis que se tornavam um choque de realidade.

Rapariga é moça, camarata é quarto, sítio é lugar, zebra é faixa de pedestre. Saramago deixou claro que não gostaria que suas obras fossem adaptadas para outros países de língua portuguesa. Convenhamos que não é esforço algum compreender estas diferenças, para mim é enriquecedor como estar conhecendo uma cultura diferente.

Esses dias li em algum lugar que terminar um bom livro é como se despedir de um amigo. Foi isso que senti além de todo o peso da quantidade de sentimentos e sentidos envolvidos. Amei mas não foi fácil, é como enxergar a realidade que ninguém quer ver, porque é feia. Se eu pudesse aconselhar diria apenas para que leiam, procurem seus próprios sentidos e procurem ler com bons olhos. Exceto se o coração for muito fraquinho.

E se eu tivesse que dar uma nota seria “Quero ler muitas vezes”.

O filme

Logo após terminar o livro, vi o filme novamente e ele me pareceu bem sem graça. Talvez eu devesse ter esperado um pouco mais, porque o livro é muito rico em reflexões comparado à adaptação e eu estava mergulhada nelas. Mas o próprio autor, aprovou totalmente o trabalho de Fernando Meireles, dizendo que finalmente teria conhecido o rosto de seus personagens e que o sentimento ao final do filme foi o mesmo de quando ele terminou de escrever o livro. Então, quem sou eu para discordar?

 

Por Patrícia Bedin

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