Arquivo mensal: maio 2012

Aprendendo poesia na escola

Dos livros que tive antes da leitura me pegar de jeito, o livro de português do Ensino Médio é o que eu tenho mais saudade. Eram bem uns 3 quilos me acompanhando durante aqueles anos de luta para por fim, entrar na faculdade.

Passava horas relendo seus poemas ao invés de “estudar”.

Minha professora nesta época era uma mulher incrível – Aparecida Bonatto o nome dela – fez com que eu e outros tantos meninos perdidos apreciassem poesia e prosa. Nesta ordem.

Este livro que eu só conheço pela capa, marcou definitivamente meu conhecimento sobre a poesia na literatura portuguesa.  Para cada acontecimento que vivencio até hoje, um fio da meada desse livro é puxado e lá estão os principais versos da história da nossa língua.

No auge da adolescência, pior que estudar História Antiga e História Moderna ao mesmo tempo, era entender as fases da literatura com tantos nomes e datas. Por consequência, tenho em minha mente um único poema que marca até hoje meus 16 anos e resume como eu e muitos jovens estudantes entendem as escolas literárias:

meu poema preferido

 

Por Patrícia Bedin

Anúncios

A insustentável leveza do ser

MILAN KUNDERA, 1984, Círculo do Livro S.A.

As viagens que fiz no ano passado de Londrina para Brasília me ensinaram que o melhor amigo para estes momentos, é o livro. Você não precisa desligar ou colocar no modo offline, ele está sempre disponível. Basta abrir que posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, já explicou o American Express.

A única diferença é que não precisei pagar por este.

A insustentável leveza do ser, é um livro que minha mãe comprou antes de eu nascer. Cresci olhando e pensando “um dia vou ler esse livro” mas como já expliquei anteriormente, não li.

Então na última visita que fiz aos meus pais, eu precisava de uma história para me fazer companhia nas cinco horas de viagem que me aguardavam e esta foi a escolhida.

No começo o papel já velhinho e empoeirado me irritou um pouco os olhos, mas logo fui distraída por tantas discussões. O romance passado em Praga, na então Tchecoslováquia durante a invasão Russa ao país, conta a história de Tomas, um cirurgião que coleciona muitas “amizades eróticas”. Ele conhece Tereza, uma moça simples e muito bonita de uma pequena cidade próxima à Praga, que entra na sua vida como um bebê enviado num cesto rio abaixo. Tereza é o grande amor deste homem, mas sofre de ciúmes por não entender o desejo dele em ter várias amantes.

Uma das amigas preferidas de Tomas é Sabrina, uma artista plástica de costumes diferentes que marca o romance com algumas cenas emblemáticas. Ela que mais tarde se envolve com Frans, possui características fortes, muito parecidas com as de Tomas, enquanto o primeiro se mostra um cara mais fraco mas que busca a beleza para sua vida.

É muito difícil explicar o que exatamente é a insustentável leveza do ser. Para mim é uma questão poética, interpretável a partir da bagagem que cada um carrega. A infidelidade de Tomas pode ser a leveza em seu estilo de vida enquanto Tereza sofre por não ser como ele. Ou Tereza é tão leve que se torna um peso na vida de Tomas enquanto a infidelidade deste é um peso para ela.

Cena do filme A insustentável leveza do ser

Acredito que o peso em geral se refira mais especificamente a uma situação (o caso de pessoas pesadas são casos de gente que teve a sorte de acumular muitas situações ao longo da vida).

Situações que inicialmente são leves e um dia você percebe que está sendo consumido por aquele peso. De qualquer forma as situações de peso e leveza podem ser muitas, mas este misto de sentimentos é claro durante todo o livro.

Esta é uma questão filosófica discutida em muitas páginas mas que não ouso tentar explicar devido ao meu conhecimento raso. Vou usar as palavras de Ítalo Calvino em Seis propostas para o novo milênio, que expressa exatamente as sensações que permeiam o livro e minha visão sobre a vida:

O peso da vida, para Kundera, está em toda forma de opressão. O romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo se revelando de um peso insustentável. Apenas, talvez, a vivacidade e a mobilidade da inteligência escapam à condenação

Aquele que abraçar alguma coisa que aparenta peso e que por fim se revela leve, encontrará o verdadeiro paraíso.

Pessoas pesadas

Neste mundo não há quem não tenha tido em sua vida, uma pessoa pesada: cara de boazinha, mansa, quieta e sofrida. Parece inofensiva mas, se você você abrir espaço para ela, vai se tornar um encosto.

Não costumo confiar em pessoas que falam pouco. Costuma-se dizer que são sábias, porque estão ouvindo e observando mais. Para mim sempre estão com o pensamento bem distante porque estão arquitetando um plano maquiavélico. Talvez simplesmente não falem por medo, insegurança ou algum sentimento ruim que em geral causa um grande peso na vida delas mesmas e dos que estão ao seu redor. Mas como já disse, é uma questão de interpretação poética.

Em todo caso vai um conselho cruel: evite pessoas pesadas. Caso já tenha uma dessas por perto, tente ajudar no máximo duas vezes depois desista.

Impressões

 Gostaria de conhecer a república Tcheca. Praga parece uma cidade linda e o encantamento de Tereza me contagiou. Imagino os tanques russos andando pela cidade e sinto uma insustentável leveza.

Praga- República Tcheca

Tereza fala sobre uma música que marcou sua infância e a música é de Beethoven –  nada de Balão Mágico ou Galinha pintadinha.

Para Tomas, o amor não se manifesta no desejo de fazer amor com várias mulheres  (esse desejo se aplica a inumeráveis mulheres) mas ao desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só mulher). Acredito na sinceridade de Tomas e também no sono compartilhado.

Kundera fala que, dos mulherengos há dois tipos: aqueles que se relacionam com muitas mulheres buscando a perfeição e os que buscam em muitas mulheres encontrar detalhes peculiares, muitas vezes estranhos, como verdadeiros descobridores.

Há uma parte do livro que o torna muito excitante, contando as aventuras sexuais de Tomas. Excitante a ponto de convencer o leitor que a vida dos sujeitos promíscuos são realmente mais leves.

Há também momentos de discussões políticas e a que mais me intriga é quando Kundera fala sobre a culpa que Édipo sentiu ao saber que dormia com sua mãe. A grande questão: o culpado é sempre culpado, ou é menos culpado quando não estava a par de todo contexto?

Uma leitura leve, muitos cortes de tempo, as vezes você não sabe se está no futuro ou no passado. Nas primeiras páginas o escritor conta a maioria dos acontecimentos importantes do enredo, deixando claro que na verdade, o que importa é a reflexão.

Pretendo ler novamente, neste caso somente depois de conhecer Nietzsche.

Em 1887 foi lançado o filme baseado na obra, que leva o mesmo nome.

Por Patrícia Bedin

Saramago – Biografia

JOÃO MARQUES LOPES, Leya, 2010.

Depois de ler Ensaio Sobre a Cegueira, me apaixonar pelo livro e pelo ritmo da leitura, comecei a planejar o próximo romance de José Saramago que eu iria ler. Encontrei este livro por acaso, mas ele me ajudou muito e ainda ajudará, nesta decisão.

Saramago - Biografia

Achei a história do autor muito interessante apesar de óbvia: garoto pobre nascido numa aldeia qualquer, se interessa por livro, vira adulto inteligente e morre famoso.

Jovem

Para os que acreditam que Saramago já nasceu velho, aqui uma surpresa. Ele nasceu em 16 de novembro de 1922, na Freguesia de Azinhaga, Golegã, Portugal, porém registrado 2 dias depois (18/11/1922). Filho de José de Sousa e Maria da Piedade, tornou-se José de Sousa Saramago por conta de um vizinho que trabalhava no Registro Civil e que estando bêbado, acrescentou sem que ninguém percebesse, o último nome ao registro da criança. Fez, porque este era um apelidinho infame dado à família na aldeia e que se referia a uma erva ruim que nasce sem ser chamada. Um tipo de capim.

O fato só foi percebido no momento da matrícula do pequeno José na escola primária, o que deixou o pai, José de Sousa muito furioso. Contudo, hoje calha perguntar quem seria “o grande escritor, Prêmio Nobel José de Sousa”?

 “O grande escritor Prêmio Nobel José Saramago” soa mais poderoso, não? Ironia do destino (nada contra os Josés de Sousa).

O menino José cresceu, trocou a escola regular pelo curso de Serralheiro Mecânico por motivos financeiros, no qual se formou, e trabalhou durante um ano, sendo depois transferido para o cargo de escrevente.

Com seus 20 e poucos anos estava casado, tinha uma filha, Violante Saramago. Mantinha um emprego regular, enquanto o ímpeto de escrever despertava até que conseguir lançar seu primeiro livro que infelizmente passou despercebido. Era chamado Terra do pecado, lançado 1947, aos 25 anos, a mesma idade que tenho hoje, o que me faz ter esperanças.

Adulto

Depois disso o autor se envolve com escritores e jornalistas influentes, passou a trabalhar no meio, até ser nomeado diretor adjunto do Diário de Notícias de Lisboa, um dos jornais de maior tiragem de Portugal, de onde foi demitido após acusações de usá-lo para favorecer o partido comunista.

Depois deste acontecido, Saramago passou alguns perrengues, escrevendo crônicas e traduzindo livros. Lançou algumas obras sem sucesso até que em 1980 lança seu primeiro grande Romance: Levantado do Chão. Depois disso, pode ter como sua única atividade a escrita, o que gerou nos anos seguintes outros livros, muitos prêmios e a consagração.

Um senhor admirável

Observe que em 1981, Quando tem sua primeira obra consagrada, Saramago completava 59 anos, a personificação do “nunca é tarde para recomeçar”.

Em 1988 se casa com a fã e então jornalista espanhola Pilar Del Rio. Uma bela história retratada no filme José e Pilar.

José e Pilar

Saramago escreveu muitas obras de cunho histórico, sendo “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” de 1991, o mais polêmico e que levou o autor a um exílio voluntário na Ilha Canária de Lanzarote, na Espanha, terra de sua segunda e última esposa. O livro do autor conhecido por seu ateísmo, foi considerado pelo governo, uma ofensa grave ao catolicismo tão fervoroso de Portugal, vetando a candidatura do livro ao Prêmio Literário Europeu (este comportamento do governo também é conhecido como perseguição).

Em 1995, lança Ensaio sobre a Cegueira, livro que inaugurou uma fase mais alegórica de seus romances. Após este lançamento, Saramago começa a ser indicado para o prêmio Nobel de Literatura, o qual o autor veio a receber em outubro de 1998.

O autor publicou outras obras sobretudo neste estilo, até poucos anos antes de sua morte. Por volta dos anos 2000, já em torno dos 80 anos, além de publicar livros sobre política, esteve engajado em diversas causas sociais, muitas destas polêmicas. O Famoso “me processa”.

E para finalizar seu legado, publicou em 2009, Caim, livro que retoma o estilo de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, irritando novamente os católicos mais conservadores.

Após sua morte, foi publicado seu segundo romance, Clarabóia, que havia sido rejeitado em 1953 pelas editoras, provavelmente pelo contexto social e político da época. No livro o autor cita o provérbio “Da Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos”, fazendo referência a uma personagem espanhola, cheia de defeitos, casada com um português. Ele que mais tarde casou-se com uma espanhola, pediu que o livro fosse publicado somente após sua morte – provavelmente por este motivo.

Em 2010 morre José de Sousa Saramago deixando esposa 28 anos mais jovem, uma filha, dois netos e a Fundação José Saramago. “São os fados” ele diria.

Estilo Saramaguiano

O estilo muito peculiar do autor, de desobedecer as regras de pontuação, aconteceu de uma forma muito natural. Depois de três anos buscando uma forma inovadora de registrar as duzentas páginas de depoimentos sobre a história de muitas famílias como a sua, em tempos difíceis do país, no livro Levantado do chão começou a escrever sem saber muito bem qual o caminho. Então o próprio Saramago neste diálogo que manteve com Juan Arias (que resultou no livro José Saramago – El amor possible) descreve como aconteceu:

(…) comecei a escrever como toda a gente faz, com guião, com diálogos, com a pontação convencional, seguindo as normas dos escritores. Quando ia na página 24 ou 25, e talvez esta seja uma das coisas mais bonitas que me aconteceram desde que estou a escrever, sem o ter pensado, quase sem me dar conta, começo a escrever assim: interligando, interunindo o discurso direto e o discurso indireto, saltando por cima de todas as regras sintáticas ou sobre muitas delas. O caso é que quando cheguei ao final não tinha outro remédio senão voltar ao princípio para pôr as 24 páginas de acordo com as outras

Impressões

João Marques Lopes é português e já escreveu outras biografias de autores portugueses como Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Esta foi a primeira Biografia de Saramago e a única lançada em vida(janeiro de 2010). O autor é filósofo e doutorando em literatura brasileira. Talvez pela familiaridade com o Brasil, é raro o uso de termos portugueses, mas por estar inserido no meio acadêmico, seu texto é denso e complexo.

O autor usa muitos dados históricos fazendo eu me sentir cansada e burra quase o tempo todo, principalmente quando fala da história de Portugal, sobretudo relacionada ao partido comunista, ao qual Saramago esteve ligado.

Mas quando descreve e contextualiza os livros, é bem objetivo. Alguns trechos de livros contendo spoillers me deixaram muito irritada, entretanto outras citações me motivaram conhecer ainda mais este velho de alma jovem.

Antes de ler esta Biografia, planejava ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo. As informações dadas por Lopes sobre o enredo, o contexto histórico e principalmente a polêmica (ah, todo mundo gosta de uma polêmica) fizeram este título ser, sem qualquer dúvida, o escolhido.

Por Patrícia Bedin

História da moda – por mulheres comuns

Todos os dias antes de dormir eu rezo e agradeço a Deus por ter nascido nos anos 80. Nesta década eu era apenas um bebê fofinho e portanto, não fui obrigada a usar ombreiras, sombra e batom colorido, fazer permanente ou cortar o cabelo mulet  para estar na moda.

permanente

O permanente fazia o cabelo da minha mãe parecer ruivo

Se eu tivesse nascido uns anos antes, seria obrigada a usar um vestido como este no baile de debutantes. Ou pior, se eu tivesse nascido 20 ou 30 anos antes, teria passado esta década usando vários modelos bizarros no estilo “tudo ao mesmo tempo” confeccionados com moldes da revista Burda.

desta década eu só aderi aos óculos Ray-Ban- como era chamado qualquer óculos de sol

Mas não fui eu, foram mulheres como minha mãe, minha sogra e minhas tias que viveram na pele, estes e outros momentos da moda, que hoje só colhemos os frutos.

Sobretudo as décadas de 60, 70 e 80, que foram marcadas por grandes revoluções históricas, culturais e fashion (por que não?) estas mulheres viveram para exercer, mesmo que inconscientemente, um papel fundamental para que hoje possamos viver neste mundo tão diferente do que era antes delas. Elas usaram minissaia, calça, alisaram e enrolaram os cabelos com métodos alternativos, trabalharam para ajudar a família, aprenderam a se maquiar sozinhas e tinham seu cantor preferido da Jovem Guarda. Algumas usaram até pílula anticoncepcional.

Das aulas e livros de história da moda, me lembro que não havia espaço para as pessoas comuns. Sempre através de fotos das estrelas de cinema ou modelos da época, a moda era apresentada como uma ditadura. Mas e as nossas mães? O que elas estavam usando nesta época? Elas faziam acontecer.

O anos 60

Os exemplos que tenho aqui são reais, mostram as saias encurtando e os estilos se misturando, naqueles períodos de transição que os livros não abordam. Veja esta bela foto da tia Vera:

Tia Vera nos anos 60

Ela está usando um tubinho acinturado com decote canoa e outro decote nas costas que não dá pra ver, mas é muito ousado. Maquiagem nos olhos tipo gatinho e o colar de pedras. A maioria das referências bem anos 50, porque as tendências demoravam um pouco mais para pegar e um pouco mais para ir embora. E o cabelo quanto tempo será que demorava pra fazer? Será que ficava durinho assim, com laquê? Só perguntando pra saber.

A tia Luiza que já era uma senhora casada, optou por um modelo mais sério. A infelicidade desta foto estar desfocada é compensada com a possibilidade de confundirmos o tailleur da titia com um Chanel de Jackie Kennedy

Tia Luiza

Tia Luiza Usando seu Tailleur ‘Chanel’

Nesta época, que era bonito ver crianças com armas na mão, as saias começaram a encurtar.

minha mãe e tia Neusa

Algumas eram muito meninas ainda e não sabiam muito o que estava acontecendo, mas conforme cresciam, aderiam a essa moda, deixando os pais alvoroçados.

É comum se ouvir que a minissaia surgiu por volta de 1960, quando as baby boomers começaram a levar essa moda para as ruas de Londres. A outra parte da história não costuma ser tão divulgada, mas imagine seus avós em sua simplicidade, vendo as filhas com as pernocas de fora.  Principalmente no interior do Paraná, onde os pais eram bem mais conservadores e intolerantes. A aceitação não foi tão imediata. No começo, muitas saiam com suas saias mais comportadas acima do joelho e dobravam o cós quando estavam na rua, para dar uma “encurtadinha” . Minha mãe como era a costureira das irmãs, fazia no comprimento que bem entendia. A única condição do meu avô é que este quarteto na foto abaixo, não passasse perto do trabalho dele.

tia Neusa, tia Zulmira, tia Merce e tia Zilda

Mas essas ainda eram comportadas. Reparem nestas outras fotos, uns anos mais tarde. Apesar do comprimento das saias da tia Neusa e da tia Zilda não serem muito diferentes, essa mocinha de listrado, é do tipo que se a gente encontra na rua hoje, pergunta se esqueceu a parte de baixo em casa.

Tia Neusa e tia Zilda na missa de formatura

Nos anos 60, o padrão de beleza também sofreu uma choque. Na década anterior, as mulheres consideradas bonitas eram mulherões como Marylin Monroe, pin ups ou mesmo mães de família, mas sempre cheias de curva e carne. Com a explosão da quantidade de jovens na sociedade, eles pararam de copiar os pais e criaram seu próprio padrão estilo. Ser jovem passou a ser mais bonito, de preferência, uma carinha de criança, como a da modelo Twiggy.

Mas o mundo estava cheio de Twiggys por aí fezendo sucesso com sua infinita magreza e seus traços delicados. Era o caso da tia Zilda.

tia Zilda

Quando essas garotas bonitas se juntavam, parecia sempre uma reunião do fã clube dos Beatles.

Reunião do fã clube supervisionada pela vó Maria

Anos 70

Os anos 70 chegaram com toda a influência do movimento hippie, e as pequenas saias foram substituídas por longos vestidos e calças pantalona ou boca de sino, cada vez mais largas, como essa aqui da tia Vera.

Tia Vera usando Calças e gola Rolê

Mulheres usando calça era uma raridade e, a popularização desta peça foi um tabu tão grande ou ainda maior que o uso de saias curtíssimas.

A grande quantidade de tecidos era imprescindível: saias godê, mangas volumosas, flor de enfeite para dar um ar bucólico, era o look perfeito.

Tia Neusa

A tia Maria aderiu ao mesmo estilo no concurso de Miss Apucarana 1975. A tia Maria é essa do vestido claro, mas não pude deixar mostrar os vestidos das outras concorrentes: a primeira com vestido de crochê e a outro com um modelo super prafrentex.

Tia Maria no concurso de Miss Apucarana 1975

A minha sogra, Gislana, que era mais novinha na época não ficou pra trás: aderiu ao vestidão.

ela é aquela mocinha la atrás, de vestido com a manga boca de sino

Outra elemento importante na década de 70 foi o cabelão. Se você que acha que a potência do seu secador é fraca ou que precisa retocar sua progressiva a cada 3 meses, não sabe como era difícil manter um cabelão alisado todos os dias. E não tinha nada de hippie ressecado e sem corte, eram cabelos que passavam o dia todo montados numa touca para ficarem lindos a noite, o que também ajudava a livrar o cabelão de danos. Aí eles ficavam mais ou menos assim: você não sabe onde começa e onde termina e sofre para achar um fio quebrado.

mãe e tia Zulmira com seus cabelões da moda

Acredito que é por conta de todo esse cuidado que minha mãe tinha com os cabelos dela, que sempre condenou minhas rebeldias envolvendo tinta e descolorante. Hoje eu compreendo. O mais radical que ela fez com seus cabelos na juventude, foi fazer reflexos acinzentados, que renderam a ela o apelido de “ a professora do cabelo roxo”.

Escrevendo a História

Dos anos 80, a maior herança que trago são as unhas enormes da minha mãe, pintadas de vermelho. Eu tive pressa em crescer, para pintar as minhas assim. De qualquer forma, escrevo hoje, com minhas unhas vermelhas, para lembrar a importância que as atitudes da minha mãe e das mulheres da sua época tiveram para na história e na moda, elas enfrentaram tabus e se propuseram a fazerem coisas que muitas mulheres não ousaram até então. Depois dos anos 90, raramente vivemos uma moda tão intensa. Na maioria das vezes estamos reinventando o que foi vivido pelas nossas mães.

Minha mãe não tem muitas fotos, mas tenho muito orgulho de saber que foi ela quem costurou a maioria dos vestidos que suas irmãs usaram. Foi dessa maneira que ela, minhas avós e todas as tias se viraram para estarem na moda.

Essa coisa fofinha na foto aí em baixo, trouxe ao mundo essa que vos fala.

mamãe em 1960, no primeiro ano da escola

A ela que sempre me consulta pra saber com que roupa deve sair, que eu gostaria de agradecer. Porque mesmo que eu entenda muito do que ela está vestindo, ela sabe muito mais que eu sobre esta história, porque ela estava lá. A ela e às minhas tias, todas, que de alguma forma participaram da minha vida, que me deram a primeira calcinha de lycra, a primeira trança nos cabelo, os primeiros brincos enormes, o primeiro estojo de maquiagem para bincar  e que escreveram a história que eu vivo hoje, gostaria de prestar esta pequena homenagem e dizer que um dia quero olhar para o meu passado e ver talvez, que fui tão importante para meus filhos, quanto elas foram para mim.

Por Patrícia Bedin

QUAL É A TUA OBRA? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética

MARIO SERGIO CORTELLA, Vozes, 2007

Temos carência profunda e necessidade urgente de a vida ser muito mais a realização de uma obra do que um fardo que se carrega no dia a dia.

O autor

No meu trabalho com moda, costumo passar muitas horas desenhando. Ano passado, enquanto desenhava, comecei a “ouvir” vídeos do youtube, para me distrair durante essa atividade. Religião, filosofia, psicologia, educação são assuntos que me interessam muito então, pesquisava por eles.

Tentando descobrir o que é Filosofia  conheci o Prof. Mário Sergio Cortella.

Fiquei admirada com a quantidade de informação que esse homem carrega e com sua facilidade em se comunicar e, principalmente fiquei me perguntando “Quem é esse cara que quase não deixou o Jô e o Faustão falarem?”.

Em algumas semanas, vi todas as suas palestras, entrevista e participações em programas de tevê. Confesso que também rolou uma empatia por ele ser pé-vermelho como eu e seus exemplos sobre como era a vida no norte do Paraná a algumas décadas atrás, tem muito a ver com as histórias que ouço na minha família.

O livro

A mensagem do livro é simples: Transforme sua vida numa obra, para ela não se transformar em um fardo. É comum ouvirmos pessoas dizendo que não misturam vida profissional e pessoal. Mas qual o sentido disso? Se você não gosta de ser em casa, a mesma pessoa que é no trabalho, há algo errado.

Nossa cultura ocidental foi construída sobre a ideia de que trabalho é castigo. Somente após a inserção do protestantismo que funciona sob a ética do trabalho como continuidade da obra divina (e da obra capitalista, coincidências à parte) essa ideia começou a mudar. O que não se aplica para o Brasil, país de ética predominantemente católica e portanto, apoiada na cultura de que só a pobreza salva.

O que precisa acontecer é mudar essa visão: tudo que faço no trabalho fora dele é minha criação, portanto,  precisa me gerar satisfação.

Inquietações propositivas

Como já deixei bem claro, sou muito fã do autor e não consigo discordar de nenhuma de suas proposições muito bem argumentadas. Vivenciei inúmeras vezes estas situações na minha pequena experiência de quatro anos no mundo corporativo. Neste período tive a feliz e também infeliz oportunidade de observar bem de perto ou mesmo vivenciar na pele, todas estas inquietações. Vou resumir as que considero essenciais. Sugiro ler com alguma reflexão (quase autoajuda):

Todas as vezes que olho o que fiz e não me reconheço, não reconheço como não sendo eu ou não me pertencendo, fico alheio.

Quando olho o que fiz como minha obra, mas a empresa onde trabalho não me reconhece, não me sinto leal a ela (resumido assim, parece óbvio).

Gente que acha que sabe tudo e não assume sua ignorância, é incapaz de se arriscar e mudar. Vive do mesmo. É preciso ter medo do mesmo.

“Se você não acredita que educação é um bom investimento, tente investir em ignorância”. Empresa e pessoas que se capacitam, não estarão automaticamente bem preparadas, mas empresas e pessoas que não se capacitam, certamente estarão despreparadas. Os tempos estão velozes e você precisa dar o seu melhor para acompanhar.

Se eu quero ver minha obra crescer, preciso de perseverança. As coisas não acontecem de uma hora para outra.

Às vésperas de não partir nunca, ao menos não há que arrumar malas(Fernando Pessoa)

Se quero mudar, preciso ter coragem de enfrentar meus medos, estar preparado para as oportunidades e não perder o foco.

Vale ganhar mais dinheiro em troca de não ter tempo?

Não existe líder nato, existem pessoas que colocadas nestas situações souberam evoluir na arte de inspirar pessoas.

A ética é um conjunto de valores de conduta que uma pessoa ou grupo de pessoas usam para responder as três grandes perguntas da vida: Quero? Devo? Posso? Somente quando as três respostas estão em consonância é possível encontrar paz de espírito. Quando essa integridade é burlada, a vida se torna pequena.

Ser ético ou não, é uma escolha. Se escolher não ser, vai enfrentar as consequências. Se escolher ser, seja coerente. Não adianta falar mal dos políticos e furar a fila do banco.

Filosofia popular

Por último, pense coletivamente. Não seja arrogante. Para estas pessoas foi dedicado o trecho mais famoso e divertido do livro, que o autor representa neste vídeo abaixo, provavelmente seu vídeo mais famoso:

Você sabe com quem está falando?

Impressões

Minha primeira impressão neste momento é que escrevi demais no tópico anterior, mas é assim que o livro faz com que eu me sinta, cheia de informações ideias e conclusões aplicáveis ao dia a dia. Tudo que descrevi no tópico acima é apenas um pouco do que este pequeno livro (em tamanho) tem a dizer.

O autor usa a semântica para explicar termos e ideias, deixando ambos fáceis de serem entendidos.

A primeira vez que li, senti falta do timbre e da entonação de voz do Cortella, já que estas são muito marcantes, fazem toda a diferença no conteúdo. Quando reli os trechos que gostaria de descrever neste post, ficou mais fácil.

De qualquer forma, o livro vale a pena (mas ainda prefiro assistir a palestra).

Por fim, dois trechos fizeram toda a diferença na minha vida profissional e pessoal, respectivamente.

O primeiro é o prefácio, escrito pela filha do autor, Ana Carolina R. Cortella Krämer. Ela conta que disse ao pai que gostaria de falar em público tão bem com ele (eu, você e todos os profissionais de Ciências Humanas, Ana Carolina). E ele respondeu:

“Quando você falar mais de 30 anos em público, será como eu”. Simples.

O segundo é quando Cortella cita vários autores para ajudar a esclarecer aos arrogantes você-sabe-com-quem-está-falando, a sua pequenês humana. De muitas, a definição de Fernando Pessoa é a mais pura:

o homem é um cadáver adiado.

Por Patrícia Bedin

Ensaio sobre a Cegueira

JOSÉ SARAMAGO, Companhia Das Letras, 1995

Ensaio sobre a cegueira

Quando João Marques Lopes contextualiza Ensaio Sobre a Cegueira em seu livro Saramago – Biografia, ele atribui o grande sentimento de distopia desta e de outras obras do autor, ao sentimento gerado por diversos fatos pós Segunda Guerra, como a Guerra Fria e a Revolução Portuguesa de 1974.  Ele diz “Não será por acaso que o próprio Saramago se referirá em várias ocasiões ao que lhe parece ser a possibilidade do fim da Razão”.

Criando coragem

“Amei o livro”, “odiei o filme”, “não leio Saramago porque é difícil”. Assisti a adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira para o cinema e fiquei mais confusa ainda. Para apagar esse enorme ponto de interrogação sobre a minha cabeça e provar para mim mesma o quanto sou foda, só encarando a leitura.

A última vez que li uma obra com tantas páginas eu estava de repouso pós-cirúgico num fim de semana frio e chuvoso, morava sozinha e a TV estava quebrada. Foi bem fácil, porque o livro era cheio de figurinhas. Sim, a quantidade de páginas é algo assustador para quem não tem o hábito de ler.

Precisei me encher de coragem para ler oitenta páginas em dez dias. Até que no décimo dia, a preguiça de sair da cama falou mais alto e decidi então, fazer algo mais útil que dormir. Peguei o livro e neste dia passei dezeseis horas comendo as palavrinhas até o fim. É bem assim mesmo, não dá pra parar.

Em terra de cego…

O enredo é simples. Uma nova doença, a cegueira branca, começa se alastrar rapidamente. O governo preocupado decide colocar todos os afetados em quarentena num manicômio abandonado.

A cegueira branca é mais ou menos assim

Entre os principais cegos estão todos aqueles que se encontravam no consultório do médico quando o primeiro cego foi buscar ajuda. São portanto: o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga de óculos escuros (porque além de cega ela está com conjuntivite, pobrezinha), o garotinho estrábico, o velho da venda preta e por fim, a mulher do médico, que é cega de mentira mas assim se faz, por diversos motivos.

Segundo o dito popular, a mulher do cego deveria ser a rainha desta terra, mas seu maior medo era se tornar uma escrava de toda aquela gente já que em pouco tempo os valores, o respeito e outras “qualidades” que diferenciam os humanos dos animais, se perderam. E não eram poucos, só era possível saber que em pouco tempo as camas acabaram e havia gente dormindo pelo chão dos corredores, das camaratas, da cozinha. Ela, a mulher do médico, era os olhos da razão, condenada a assistir tudo bem de perto, sem muito a fazer.

Fim e retorno da razão

Aviso: este trecho contém alguns spoillers, nada que atrapalhe o prazer da leitura, mas se ainda assim você não quer saber, pule para o próximo subtítulo.

Apesar de triste, sofrido e muito degradante na maior parte do tempo, o livro traz também sentimentos positivos.

No começo todos vivem por comida: defecar, comer, transar e dormir nos corredores do manicômio são detalhes perto da feiura que estão as ruas com gente morta pelas calçadas, gente lutando como zumbis por comida e abrigo. Apesar disso o grupo que anda com a mulher do médico desenvolve sentimentos de união, companheirismo, amizade e cuidado uns com os outros. Coragem para enfrentar os bandidos, se doar pelo outro sem receber nada em troca, compaixão para perdoar, até amor nasce entre a rapariga e o velho. Sim, o homem velho da venda preta.

Quando não há olhos para apreciar ou julgar as aparências, as coisas que realmente importam emergem. É como se o bom senso e a razão estivessem retornando à vida ou, mais provável, sobrevivido a duras penas na pessoa da mulher do médico. Como teria sido de ela tivesse desistido? Se abstido?

O que é a cegueira?

“Em terra de cego quem tem um olho é rei.”

“O pior cego é aquele que não quer enxergar.”

“Muita luz é como muita sombra: não nos deixa ver.”

Todas as citações são possíveis. No começo eu acreditava que uma delas teria sido a semente do enredo. Depois pensei que a semente era a suposição “e se todos ficassem cegos?” e por fim pensei “vejam como todos estão cegos”.

Cada fato do livro não é muito diferente do que assistimos aos domingos no fantástico. Vai de desembargador apoiando o tráfico de drogas a roubo de órgão para transplante. Essencialmente, qual é a diferença entre um estupro coletivo e corrupção no Brasil?  Ou famílias vivendo sem saneamento básico e eletricidade num país que arrecada mais de 500 bilhões de reais em quatro meses?

Os personagens mudam, mas a cegueira é a mesma.

Impressões

Aquele estilo ame-ou-odeie saramaguiano, com poucos parágrafos, pouca pontuação e muitas letras maiúsculas depois da vírgula, deixou de ser um monstro rapidamente e se tornou uma voz calma e distante, me contando uma história longa e cheia de detalhes, com um sotaque português quando apareciam expressões características e ironias tão sutis que se tornavam um choque de realidade.

Rapariga é moça, camarata é quarto, sítio é lugar, zebra é faixa de pedestre. Saramago deixou claro que não gostaria que suas obras fossem adaptadas para outros países de língua portuguesa. Convenhamos que não é esforço algum compreender estas diferenças, para mim é enriquecedor como estar conhecendo uma cultura diferente.

Esses dias li em algum lugar que terminar um bom livro é como se despedir de um amigo. Foi isso que senti além de todo o peso da quantidade de sentimentos e sentidos envolvidos. Amei mas não foi fácil, é como enxergar a realidade que ninguém quer ver, porque é feia. Se eu pudesse aconselhar diria apenas para que leiam, procurem seus próprios sentidos e procurem ler com bons olhos. Exceto se o coração for muito fraquinho.

E se eu tivesse que dar uma nota seria “Quero ler muitas vezes”.

O filme

Logo após terminar o livro, vi o filme novamente e ele me pareceu bem sem graça. Talvez eu devesse ter esperado um pouco mais, porque o livro é muito rico em reflexões comparado à adaptação e eu estava mergulhada nelas. Mas o próprio autor, aprovou totalmente o trabalho de Fernando Meireles, dizendo que finalmente teria conhecido o rosto de seus personagens e que o sentimento ao final do filme foi o mesmo de quando ele terminou de escrever o livro. Então, quem sou eu para discordar?

 

Por Patrícia Bedin